No mês passado completamos nosso primeiro ano trabalhando e vivendo em Barcelona. Um ano de adaptação à uma nova cultura, idioma, trabalho, etc. Pois muito bem, e como foi todo esse processo? Isso eu conto agora e lá vem textão.

Lembrando que tudo que vou contar é experiência própria e que não sou especialista em trâmites legais.

Viver em Barcelona

A trajetória

Primeiro de tudo, nós dois somos engenheiros da computação, eu trabalho com qualidade e o Leonardo com desenvolvimento. Desde 2013, quando voltamos de Dublin para o Brasil depois de um tempo de intercambio, pensávamos em voltar para Europa. Dessa vez, para trabalhar nas nossas respectivas áreas.

Nosso grande desafio sempre foi o visto, pois dependíamos de uma empresa que aplicar o visto de trabalho. Pensamos em muitos países, sempre focando em algum que o inglês fosse bem difundido e assim tentamos traçar uma estratégia simples:

  1. Buscando países com uma alta demanda de profissionais de TI
  2. Que o inglês, como dito antes, fosse um idioma bastante comum no lugar
  3. Pesquisa durante horas no LinkedIn sobre o perfil de profissional que estavam buscando
  4. E com isso um plano de estudos para alcançar esse perfil desejado.

De lá pra cá foram 4 anos estudando muito e aprimorando o lado profissional. Vez ou outra uma entrevista fora para “medir” o quão próximos estávamos do nosso objetivo. Tudo mudou em 2016, quando depois de um tempo de curso de espanhol – que também por necessidade do trabalho – resolvi aplicar a algumas vagas da Espanha, até então um lugar que nem havíamos cogitado.

Poucos dias depois eu tive o retorno de uma das empresas e comecei o processo de seleção. Em 5 meses eu estava embarcando rumo a Barcelona.

Viver em barcelona

O visto

Mais uma vez, vou contar a minha experiência, que é muito específica, e não conheço todas as regras e trâmites para poder orientar sobre o que fazer legalmente. Neste caso é sempre melhor tirar todas as dúvidas com a empresa que está te contratando.

No meu caso, foi necessário que a empresa aplicasse o visto de “profissional altamente qualificado”. É um trâmite relativamente demorado (ai que agonia) e também não é certeza absoluta que o governo dê o aval. Tudo ocorre mais ou menos assim: a empresa aplica toda a documentação e solicita um visto de trabalho para você, pois eles têm uma demanda X de profissionais qualificados em determinada área e não conseguem encontrar cidadãos da UE que preencham os requisitos.

A empresa me fez a proposta e com o meu ok, solicitaram uma lista de documentos: todas as páginas do passaporte, diploma, cv, certificado criminal e no nosso caso a declaração de união estável. Todos os documentos tiveram que ser traduzidos e juramentados para depois passar pelo apostilamento de Haia. Só a compilação dos documentos demorou um mês.

Na Espanha, tanto a certidão de casamento quanto a declaração de união estável (em espanhol pareja de hecho) são válidos para que o visto se estenda ao parceiro. Junto con a nossa declaração de união estável, foi necessário também comprovar que vivíamos juntos por 4 anos, com comprovantes de residência de ambos. Não sei ao certo como é em outros países, mas aqui esse visto permite que o parceiro possa trabalhar sem necessidade que seja aplicado um novo visto só para isso.

Depois de enviada toda a documentação esperamos por mais um mês até que saiu o work permit. Com a carta de ok do governo Espanhol ainda foi necessário ir ao consulado, levar a documentação para que depois de 2 semanas eles finalmente colocassem o visto no meu passaporte. Total: 3 meses entre documentos e espera.

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Custo de vida e Salário

(lembrando que esse post é referente a 2017/2018)

Um erro muito comum nosso é tentar converter o que se ganha no Brasil para a moeda do novo país e tentar negociar esse salário. O primeiro passo deveria ser tentar conhecer um pouco do custo de vida do lugar e pensar no poder de compra. E por assim dizer, a Espanha não tem os salários mais altos para a área de TI, porém para uma cidade super turística como Barcelona, o valor do nosso salário é satisfatório. Pelo que pude ver em alguns lugares aqui, a faixa comum de salario para TI está entre 32-40 mil anual. Lembrando que isso é apenas feeling por conhecer outros profissionais daqui.

Em relação ao custo de vida, posso dar os nossos valores como um exemplo super resumido: moramos na região central da cidade e pagamos de aluguel 1mil euros, em um ap de 2 quartos. Não é um valor baixo, mas nos permitimos gastar mais nessa nossa primeira etapa para curtir mais a cidade. Em contrapartida, não preciso gastar com carro ou transporte público, porque posso ir a pé ou de bicicleta para o trabalho. No mercado, saindo muito do básico, gastamos mais ou menos 50,00 euros por semana. Com energia, mais ou menos 110,00/mês e água 40,00 a cada 2 meses.

Dá para gastar menos? Sim! A administração das contas vai muito da necessidade de cada um, mas uma coisa que sabemos com toda certeza é que tem como economizar sim.

Adaptação

Ouso dizer que Barcelona é um lugar propício para os brasileiros, me refiro a Barcelona porque é o lugar que conheço de fato. O clima é bom, a cidade é ensolarada, no verão esquenta para valer e no inverno esfria sim, mas não é o frio mais rigoroso ou chuvoso da Europa. A cidade tem um lado bastante boêmio e cosmopolita. Aqui tem gente de todo lugar do mundo!

Come-se bem. É difícil dizer que aqui você não encontra uma variedade de produtos que muitas vezes são bem parecidos com o que temos no Brasil. Ok.. ok.. sinto falta de coxinha, pão francês quentinho, pastel, feijoada, mas sempre teremos aquele restaurante brasileiro pra ajudar nessa missão, não é verdade?

Sobre o idioma, nos viramos bem no castellano, alguns dias mais inspirados que outros, mas no final nos entendemos. No entanto, além do castellano o idioma oficial da Cataluña é o catalão. Aí sim temos um problema! E sim, fala-se muito o catalão aqui. Quando estivemos aqui em 2013, não percebemos tanto, mas hoje em dia sim. Talvez porque agora vivemos aqui?! Não sei. Hoje a gente até entende poucas palavras e consegue ler alguma coisa, mas continua sendo um idioma difícil para nós. No trabalho isso pode influenciar negativamente ou não, depende muito da empresa e das pessoas. Eu trabalho em uma empresa que tem muita gente que só fala inglês, mesmo assim já tive momentos em que todos seguiam a conversa em catalão, sem se dar conta que eu estava ali. Nesses casos é só levantar a mão “Hey..I’m here”.

Em relação às pessoas, eu me considero muito sortuda. Entrei em um grupo em que, com limites, todos tentaram fazer com que minha adaptação fosse a melhor possível. Mas isso vai depender muito da pessoa e das pessoas que te vão receber, como em qualquer lugar do mundo.

Viver em Barcelona

Preconceito

Particularmente, não sei opinar sobre esse ponto a um nível geral. Eu não sinto que tenha sofrido preconceito, mas já ouvi histórias de gente que sentiu isso. É difícil dizer, mas o que eu sempre penso é que o preconceito existe inclusive no Brasil e não é uma coisa normal, jamais será, tampouco será o motivo para impedir  que eu prospere ou que me faça sentir menos que alguém só porque sou estrangeira, brasileira, sul-americana, (mulher??), o que seja.

Um “causo” – certo dia estávamos na lavanderia e chegou uma brasileira maravilhosa! Logo começamos a conversar e eu como adoro “entrevistar” pessoas perguntei sobre o preconceito aqui e ela me disse uma coisa linda, mais ou menos isso – “o preconceito está na nossa cabeça, mesmo quando tentam me diminuir seja lá por qual motivo, eu dou mais 500 motivos pra mostrar que sou melhor que eles e os enfraqueço”.

Então, sobre isso fica a reflexão, você vai deixar que o preconceito te pare?

E um balanço final…

Foi uma das melhores decisões da minha vida! Se você não sabe, em 2013 fomos furtados aqui em Barcelona e levaram até nossos passaportes (tem um post que conto tooooda a história). Prometi que não voltaria nunca mais, mas veio a vida e me ensinou quem manda mais uma vez. Aqui estou crescendo como ser humano e como profissional.

Sabe zona de conforto? Vir para cá foi como despencar da minha zona e em meses eu aprendi o que não aprendia em anos na minha área, no Brasil. Tenho qualidade de vida – vou caminhando ou de bike para o trabalho e não dirijo há 1 ano. Não fico horas além do necessário presa num escritório, não mais. Conheci pessoas maravilhosas nesse percurso, aprendi com elas. Claro que tive problemas, senti raiva, reclamei, mas vem cá… isso aqui ou em qualquer lugar do mundo né?!

Resumindo, foi um ano de saldo super positivo.

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