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O tempo passa e o que fica do Caminho de Santiago?

Já se foram alguns anos da experiência que mudou nossa forma de pensar e agir, o tal Caminho de Santiago. Mas o depois desse tempo o que realmente mudou nas nossas vidas?

Trilhando nosso caminho
Seguir as setas amarelas

Bom, se você nunca fez essa peregrinação e conhece alguém que fez provavelmente já ouviu essa pessoa dizer: “Mudou minha vida”. Eu já ouvi isso e já me perguntaram se era isso mesmo. O que dizer? Sim, o Caminho é revelador, muda a maneira de pensar de praticamente todos que o fazem, mas nada é tão simples, muitas coisas vem com o tempo. Para começar, depois que se faz a caminhada você se torna um eterno peregrino e é  um sentimento lindo. Mas nem tudo são rosas, nos primeiros dias eu me perguntava onde eu estava com a cabeça quando inventei essa pernada de 800km cruzando a Espanha. A cada subida com a mochila pesada, ou chuva, ou fome, ou qualquer dificuldade eu me questionava sobre o que estávamos (Leonardo e eu) fazendo ali.

28 dias dormindo de galera

No inicio até birra de um peregrino “entrometido” eu tive. Ele questionava até a forma como nós guardávamos o sabão e eu me culpava por estar no meio de uma peregrinação, me sentindo irritada com alguém por algo tão banal. Muitos contratempos aconteceram, testes de paciência talvez. Por outro lado muita coisa mudava – paciência, tranquilidade para viver um dia de cada vez, afinal Santiago estava no mesmo lugar e lá ficaria.  Empatia, carinho, compaixão, solidariedade, depois que essas coisa tomaram conta da gente, ficou fácil sentir tudo isso por cada um dos peregrinos que nos acompanhavam. Superação – depois de muito Betodine e curativos para bolhas, estávamos assistindo à Missa do Peregrino.

Caminho de Santiago - Campos de flores
Flores? Muitas pelo Caminho

E agora voltando ao início, depois de 2 anos dessa experiência, o que mudou? Bom, logo depois do Caminho me perguntaram “O que mudou?”. Sinceramente, eu continuava sendo a mesma, não passei por um portal, nem senti a magia que muitos pintam que é o Caminho. Sentia sim, dores, cansaço, saudades de algumas comodidades. Mas então qual o sentido de tudo isso? Como eu disse em um dos parágrafos anteriores: Paciência. Sim, eu mudei! Porém, precisei de tempo para ver o quanto.

 

Depois de um tempo que já havia voltado pra minha vida de sempre, comecei a, do nada, sentir o cheiro dos campos floridos que passamos por lá. Me dava uma saudade. Do que? Da dor? Cansaço? Talvez sim. A saudade era de tudo, das pessoas que conhecemos, histórias que ouvimos, dos lanchinhos que fazíamos em cima do meu lenço ou em qualquer lugar que tivesse sombra. Saudade da paz e da simplicidade. Mas não parou por ai! Em dias estressantes no trabalho, no meio do furacão, eu simplesmente fechava os olhos e me colocava em algum lugar dos 800km. Ufa, por alguns instantes estava salva! Alias, faço isso até hoje.

Hoje o que permanece na minha vida? Não sou o tipo de pessoa doce e delicada, não confunda isso com ter feito uma peregrinação. Eu tenho compaixão e empatia, mas continuo errando com muita gente, afinal sou humana. A maior mudança de um peregrino é a forma como ele enxerga o mundo (peregrinos de plantão, me corrijam se eu estiver errada), a gente sabe que dificuldades existem e sabemos que tudo tem seu tempo. Desafios estão aí para serem vencidos, com respeito pelos que nos cercam e muita força de vontade. Além disso, hoje vejo o mundo com um certo desapego: roupas, aparência, lugares, pessoas –  prefiro pensar em tudo isso com simplicidade, como e com quem me sinto bem. Quero estar cercada de amor real e de pequenas coisas que agregam. Eu mudei, todos mudamos, e vivemos isso constantemente. Ninguém deixa de errar porque fez o Caminho, ninguém muda de uma hora para outra, mas sutilmente vamos continuando nossa peregrinação dia após dia. Podem passar 2,5,10 anos…continuaremos mudando.

Caminho de Santiago - Destino algum
Seguir em frente

O Caminho? Ele continua sendo o meu refugio, seremos eternamente peregrinos. E se me perguntarem: “você o faria de novo?”. Minha resposta, “Eu o farei, mais 1, 2 , 5 vezes… o máximo de vezes que eu conseguir!”. Tenho um companheiro perfeito para isso e desejo ouvir ainda muitas outras histórias de peregrinos.

Finalizando, o Caminho fica dentro de cada peregrino, com suas sensações e memórias. O que ficam são as lições que aprendemos lá e a vontade de mudar todo dia.

O Caminho de Santiago

Sobre Juciara Nepomuceno

Juciara Nepomuceno
Engenheira de Computação por formação, especialista em Qualidade de Software por profissão e uma eterna exploradora por opção. Desde cedo um tanto nômade, mas há um tempinho em Floripa. Duas grandes paixões: viagens e botas de trilha! Prefiro conhecer lugares inusitados aos velhos pontos turísticos.

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