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Uma lição de simplicidade [Caminho de Santiago]

Bom, espero que a leitura sobre nossas impressões do Caminho de Santiago não se torne cansativa um dia. Mas não tem como tentar explicar um pouco do que é essa experiência sem contar os fatos que nos marcaram de forma bem tranquila e sem sequência. Hoje eu quero contar sobre uma das estadias que mais me marcou durante aqueles dias.

A famosa filinha de mochilas. Marcando a posição de chegada dos peregrinos.
A famosa filinha de mochilas. Marcando a posição de chegada dos peregrinos.

Já estávamos há 424Km percorridos (segundo nosso guia), ainda nos recuperando das primeiras semanas, quando também precisamos fazer um trecho de ônibus. Acho até que foi quando realmente eu comecei a pegar um pouco mais do ritmo da caminhada. Saímos de Sahagún e andamos só 10Km, e um calorzinho ardido matando a gente. Andamos bem pouco naquele dia porque precisávamos seguir certinho o nosso guia para poder chegar em Santiago conforme o planejado (e replanejado).

Paramos em uma cidade chamada Bercianos del Real Camino, cidade é modo de dizer, era uma vilinha e como a grande maioria, muito tranquila.Chegamos ainda cedo, andamos um pouco e achamos o albergue, o único do lugar e que estava fechado. Deu vontade de não ficar ali, o albergue parecia muito mal acabado. Mas ficamos, logo começou a aparecer mais gente. Eu sentei um tempinho na porta do albergue e uma das hospedeiras apareceu, eu tentei gastar todo meu inglês misturado com um espanhol bem fraco pra ver o horário que abria e ela respondeu que abriria às 13.30h, mas poderíamos nos ajeitar e lavar roupa no pátio, ok! Quando vimos estavam as “coréia” (nossa colegas asiáticas de caminhada) e um grupo de italianos (impossíveis, se sentindo no litoral, tomando sol). Essas coisas só me faziam ficar mais arrependida de estar ali.

Sentada na porta do albergue. Ele é estranho não é?
Sentada na porta do albergue. Ele é estranho não é?

Por fim, o albergue abriu… E aquela hospedeira falou alguma coisa (que não lembro o que é) em português. Estranhei e não me aguentei “Você é brasileira?” e ela disse que sim..uma gaúcha! Sim, gastei todos meus idiomas tentando me comunicar com uma brasileira. E claro, demos risada. Você não tem ideia do que é encontrar uma hospitaleira brasileira depois de tantos albergues (dor e sofrimento). Ela tratou a gente com tanto carinho, tanta atenção, que eu me senti recarregada.

Esses hospitaleiros, são as pessoas responsáveis por receber os peregrinos e manter os albergues em ordem, são voluntários que passam de 15 dias a 1 mês vivendo em função dos peregrinos que ali chegam. Você já se imaginou se doando por um estranho? É isso que eles fazem. E foi nesse albergue me caiu a ficha. Como eu disse, por fora o lugar é totalmente estranho, mas por dentro, é como se sentir em casa. E o albergue sobrevive de doações dos peregrinos e ajuda da comunidade. Você chega lá, tem uma cama limpinha, tem uma jantinha te esperando (com vinho e tudo) e no outro dia um café da manhã pra você ir em paz e forte. Tudo muito simples, mas depois de duas semanas caminhando, você esquece de muitos luxos. Eu nunca gostei de lentilha, sempre torci o nariz mesmo. Daí chega a Jaqueline (a hospitaleira brasileira) diz que a janta seria uma lentilha que ela mesma faria, salada e arroz. Eu olhei para o Leonardo com a cara “Essa não” e me imaginei comendo biscoito a noite.

Esse é o quarto dos peregrinos.
Esse é o quarto dos peregrinos.

Nossa janta foi servida, com todos os 45 peregrinos, animados, barulhentos  e dividindo algumas mesas do refeitório. Antes disso, cantamos, brincamos, rezamos. Cantamos (eu, Leonardo e Jaqueline) País Tropical, na frente de um monte de gringo batendo palma. Uma loucura! Enfim, hora de experimentar a lentilha. Juro que no mesmo momento se tornou meu segundo feijãozinho. Comidinha deliciosa, que inclusive se tornou parte da nossa dieta durante o caminho. Fizemos uma festa do nosso jantar, ainda tomamos um vinho regional  doado por um senhor que além de poeta é um eterno peregrino. Incrível!

No outro dia? Ahhh dava dó de partir…mas precisávamos seguir a diante! Eu..bom, eu levei em um dia só vários tapas na cara e foi ali que me veio a vontade de um dia poder ajudar também, esses peregrinos cansados que chegam no albergue só procurando descansar um corpinho cansado. Enfim, nos despedimos da Jaqueline e da sua amiga que eu não lembro o nome (perdão) e por alguns desvios do caminho, acabamos perdendo o contato da nossa hospedeira brasileira preferida, uma pena.

Nossas hospedeiras. A Jaqueline é essa do meu lado.
Nossas hospedeiras. A Jaqueline é essa do meu lado.

Concluindo, pessoal nunca julgue nada pela aparência porque você pode se arrepender amargamente de ter escolhido um outro caminho, só pela facilidade, comodidade ou beleza. Foi essa a lição dura e doce que tomei neste dia de Caminho de Santiago.

Até o próximo destino.

Sobre Juciara Nepomuceno

Juciara Nepomuceno
Engenheira de Computação por formação, especialista em Qualidade de Software por profissão e uma eterna exploradora por opção. Desde cedo um tanto nômade, mas há um tempinho em Floripa. Duas grandes paixões: viagens e botas de trilha! Prefiro conhecer lugares inusitados aos velhos pontos turísticos.

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