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As pessoas pelo Caminho

Hoje faz exatamente um ano que iniciávamos o Caminho de Santiago, mas ainda escrevemos muito pouco sobre. As histórias são muitas, dicas também, mas às vezes (quase frequentemente) falta tempo para organizar tudo e colocar no papel. Por isso, agora vamos tentar dar um gás. Um dos temas que eu sempre quis escrever era sobre as pessoas que encontramos no Caminho. Sabe porque? Para mostrar que por mais que você ache ou até sinta medo de ser uma caminhada solitária, não é! Pelo contrário, a graça de caminhar centenas de quilômetros é você conhecer a história dos outros peregrinos e perceber o quão pequenos são seus problemas. É sentir-se humano e com tempo para ouvir. É mudar!

Nosso Caminho não seria o mesmo sem essas várias pessoas (e nem todas vão aparecer aqui)… Deixamos um pouco de nós com elas e trouxemos um pouco delas conosco. Tem riqueza maior?

Mas sem delongas… Apresento-lhes agora:

Marcelino Peregrino
Marcelino Peregrino

Marcelino “el Peregrino Pasante”

Esse cara está em um dos pontos trilha, passando por Logroño. Ele já é ancião no que diz respeito ao Caminho, fez inúmeras vezes e agora ele contribui prestando apoio aos novos caminantes. Ele todos os dias arma acampamento, dispõem de frutas, chá, leite, biscoito e fica recepcionando os peregrinos, convidando-os a fazer uma boquinha e a carimbar sua credencial. Você acha que isso é estranho? Saindo de St. Jean, ter pessoas que largam tudo para fazer esse tipo de apoio durante o ano é mais que comum. Eu achava incrível ver aquelas banquinhas com tudo sendo oferecidas para nós, por um custo… Bom, aí vai da cabeça da pessoa. Se você não pode ajudar, não tem problema, coma! Se você pode ajudar, você deve… pois esse apoio sobrevive com doações. E digo mais, é bonito de se ver. Quando você está há 4… 5 dias andando no meio do nada e vê um gesto tão singelo como esse, de a pessoa deixar de “viver” para estar ali te recebendo, te dando bom dia, te oferecendo um chá… você pensa “sou amado… a humanidade ainda tem solução”. Obrigada Marcelino! Você também está no meu coração.

 Bernardo (o outro brasileiro):

Bernardo
Bernardo

Esse é um louco (um dos), um sem noção, de um coração maior que esse Brasil. Ele, caminhando sozinho, passou por nós um dia e acabamos ficando no mesmo albergue. Soubemos que ele era brasileiro por um outro peregrino que veio perguntar se o tínhamos visto. Enfim, conversamos com ele mesmo, no outro dia durante a caminhada. Eu, como sempre curiosa, sempre perguntava “Por que fazer o Caminho de Santiago?” (acho que eu tentava entender porque eu estava fazendo aquilo também). A resposta dele não poderia ser melhor. Ele queria ser um exemplo para sua filha. O Bernardo saiu do Vaticano e ao chegar em Santiago teria caminhado mais ou menos 2500km (e você achando 800km loucura).  Ele queria que a filha dele tivesse o exemplo de que uma luta se ganha com amor e dedicação, por isso resolveu juntar 2 caminhos nessa jornada (o do Amor e o da Paz). Quando o encontramos ele já tinha percorrido 2200km e seria a distancia de Belo Horizonte onde ele morava até a cidade onde a filhinha estava morando. Ele passou por tudo e ouvir ele durante 40..50minutos me deixaram realmente emocionada. A história dele é longa e hoje, depois de quase um ano, espero que tudo tenha dado certo para você, peregrino!

Os portugas:

Casal de portugueses
Casal de portugueses

Esses dois eram umas figuras, mas vou ficar devendo o nome deles. Isso é normal, você irá conversar com muita gente, sem nem ao menos se preocupar com o nome. Eles adoraram nos ouvir falando, disseram que era bom ouvir português, já que o espanhol nem sempre faz questão de entender o que falamos. Eles se divertem fazendo essas peregrinações. Os filhos são só o suporte deles, caso precisem de algo urgente. Ela e eu tínhamos a mesma tática para descansar, era só dar a desculpa da foto que tava tudo certo. Eles fizeram a rota portuguesa, mas acharam a rota francesa mais bonita e difícil #FicaDica. Um casal gracinha que falava do casamento com graça e entusiamos..certamente um bom exemplo.

Pedro
Pedro

Pedro Violeiro:

Outro maluco e brasileiro. Ele estava fazendo o Caminho pela segunda vez consecutiva. Sim, consecutiva. Ele fez a primeira vez com o pai, saindo também de St. Jean. Chegou em Santiago e disse para o pai “vou fazer de novo”. Ele queria saber se seria a mesma coisa. Pegou o trem e voltou a St. Jean, de lá voltou à trilha..ele e seu violão. O problema foi que ele teve N imprevistos financeiros e teve que fazer muito esforço para se manter. Ele disse para gente que dessa vez sim ele estava sentindo o que era o Caminho e o que era ser um peregrino como deveria ser… sem luxo, só o necessário. Ele é um guri, mas teve nossa admiração!

O ultimo Cavaleiro Templário:

O ultimo Cavaleiro Templário
O ultimo Cavaleiro Templário

Você não acredita? Ah meu amigo, eu acredito! Ele tem até uma espada. Enfim, crê-se que os templários cuidavam do Caminho de Santiago para proteger os restos do apóstolo Tiago. O seu Thomas continua fazendo isso. Ele assim como o Marcelino, oferece seu castelo para que os peregrinos entrem, comam algo (não esqueçam de doar sempre que possível) e se divertir vendo os recortes sobre ele pregados na parede. Não tem erro, você vai achá-lo. Ele é o único em uma vila (fantasma) depois da Cruz de Ferro, Manjarín. Entre e converse com ele! Ele largou tudo para ajudar os estranhos do Caminho.

Espanholita:

Viva Madrid
Viva Madrid

Não lembro do nome dela também. Mas era amiga do Pedro. Ela é de Madri e pelo que pudemos ver, ela viveu o Caminho. Uma artista, foi para a peregrinação com pouquíssima grana e foi se arrumando como dava. Inclusive fazendo malabares! Coisa simples minha gente! Simples! Ela era assim… às vezes parecia até sem noção, mas meu amigo, você escolheu andar 800km a conhecer a Europa… logo, não, você também não é normal. Mas ganhou uma coisa: Vida!

Jane
Jane

Sweet Jane:

Ela uma canadense, que casou, trabalhou muito, criou os filhos e resolveu conhecer o desconhecido. Viajou bastante até que um dia resolveu saber qual era a desse tal Caminho. Ela, sem pressa, dizia que queria vivenciar aquilo. Encontramos com ela 2 ou 3 vezes. Tomamos vinho juntos, cozinhamos juntos. Ela sempre paciente, queria saber porque estávamos ali também. Ela nos mostrou um outro lado do Canadá e deu uma lição de experiência que não tivemos nem na Torre Eiffel nem contemplando o Big Ben. Só tivemos porque nos permitimos ter contato com esses estranhos tão amáveis.

As hospitaleras:

As hospitaleras
As hospitaleras

Ai ai essas duas não temos palavras! Essa do meu lado é a Jaqueline, brasileira que vive hoje em Barcelona. A do lado dela também vou ficar devendo o nome. Elas são hospitaleiras (como chamam os voluntários que cuidam dos albergues do Caminho) e nesse período trabalhavam em Berciano. Um albergue super simples, mas foi o mais aconchegante. Elas fizeram o jantar para os 40 peregrinos, rezamos, jantamos juntos, cantamos (eu, Leonardo e Jaqueline). Sensacional!! A essa altura nós já estávamos imersos nessa energia. A Jaqueline nos explicou como era a rotina delas (puxado pra caramba) e nos fez sentir em casa! Dois anjos que fizeram toda a diferença e plantaram na gente a vontade de um dia também dedicar uns dias para sermos voluntários nessa caminhada! Nota mil para vocês!

Os gringos
Os gringos

Os gringos:

Para fechar, esse casal. A questão não é que não lembramos os nomes, é que não sabemos mesmo. Nós nos encontramos várias vezes, nos preocupávamos uns com os outros e conversávamos muito. Mas nunca entendemos o nome deles. Chegava a ser engraçado. Sempre um “Vocês então bem?” e um pouco de conversa, mas nunca nos apresentamos direito. Eles eram engraçados e muito atenciosos. Quando nos encontramos em frente a Catedral o cara abraçou forte o Leonardo e disse “meu amigooo” com uma felicidade. E nós também!

Eu li muito sobre a chegada a Santiago e sempre diziam que depois desse um meses no Caminho, você teria feito amigos sem saber. A cada colega que chegava era um abraço que acontecia… como se todos se conhecessem há muito tempo. E todos se sentiam felizes de ver o companheiro vencendo aquela luta. Teve até um cara, o qual conversamos muito com o amigo dele em Los Arcos, o amigo dele era Húngaro mas tinha um inglês muito bom e nunca vou esquecer de quando fomos apresentados e ele me disse “Meu nome é Mickey… como Mickey Mouse”. Enfim, o amigo no Mickey viu a gente em Monte Gozo (4km de Santiago) e abriu um sorrisão “Lembram de mim?? Amigo do Mickey”… Como não lembrar e como não sentir carinho?

Me prolonguei no post! E sabe do mais, não falei nem sobre metade das pessoas que fizeram nosso caminho diferente. Ahhh mas tem história! Se você vai fazer o Caminho também, se jogue! A graça da peregrinação é a história que cada peregrino carrega.

Buen Camino!

Sobre Juciara Nepomuceno

Juciara Nepomuceno
Engenheira de Computação por formação, especialista em Qualidade de Software por profissão e uma eterna exploradora por opção. Desde cedo um tanto nômade, mas há um tempinho em Floripa. Duas grandes paixões: viagens e botas de trilha! Prefiro conhecer lugares inusitados aos velhos pontos turísticos.

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